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sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

"A CHINA MENTE E ENGANA A COMUNIDADE INTERNACIONAL HÁ MEIO SÉCULO"


 Jornal Expresso

Em 2011, quando conseguiu fugir da China, disse: “Estou a tentar convencer-me de que não estarei fora muito tempo e que tudo mudará em breve”. Já lá vão dez anos de exílio na Alemanha. Yiwu Liao, que deu uma entrevista exclusiva ao Expresso, tornou-se um dos maiores inimigos de Pequim, pelo que escreve e diz e por ajudar outros dissidentes. A última foi Liu Xia, viúva do Nobel da Paz Liu Xiaobo, que morreu em 2017.

Em entrevista ao Expresso, Yiwu Liao oscila entre raiva, frustração e nostalgia ao falar de casa, que abandonou depois de preso e perseguido. Começou a ser um alvo após o Massacre de Tiananmen, em 1989. Depois publicou dez livros e ganhou mais de uma dezena de prémios pela obra que repete o protagonista: o regime do Partido Comunista chinês (PCC). Sente falta do vinho, da comida e do dialeto de Sichuan, onde nasceu e para onde quer voltar. O escritor diz que Pequim lhe roubou os sonhos e as raízes, mas também culpa o Ocidente por fechar os olhos.

É conhecido por ser crítico do regime chinês. O impacto do que escreve vale os riscos que corre?

Os meus livros “For one song and one hundred songs – a literary testimony from a Chinese prison” e “Bullets and Opium” [sem edição portuguesa] tiveram impacto gigante. Ganhei o prémio Geschwister-Scholl-Preis, em 2011, o Peace Prize, da Associação German Publishers and Booksellers em 2012, e o Prémio Ryszard Kapuscinski International Report. Na comunicação social sou referido como o “Solzhenitsyn da China”, porque comparam estes livros a “O arquipélago Gulag” [sobre a vida nos campos soviéticos]. “Bullets and Opium” foi o livro com maior impacto no âmbito da literatura sobre o Massacre de Tiananmen.

Diz que há muitas histórias por contar, entre outras a de “todos os dirigentes chineses corruptos que emigram para os Estados Unidos”. Tem-se dedicado ao que está por contar?

Em 2019 publiquei “18 prisoners and two Hongkongers escape prison in Germany” e “When the Wuhan virus came”, em Taiwan, já com edições em inglês, alemão e polaco, que sairão na primeira metade do ano.

Temas atuais.

O último é um romance baseado em factos verídicos. Durante dias, pesquisei no site do Instituto de Virologia de Wuhan. Também procurei estar a par do debate protagonizado por Shi ZhengLi, conhecida como “Batwoman da China” depois de descobrir que o SARS tinha origem nos morcegos e que nega que o vírus da covid-19 tenha resultado de uma fuga de um laboratório em Wuhan. Até que muitos indícios acessíveis ao público foram apagados. O Governo chinês, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e especialistas na China e no Ocidente concordaram em negar que o novo coronavírus tenha tido origem no laboratório de Wuhan. Quem levanta essa tese é acusado de teoria da conspiração. Parecem esquecer que a China é uma nação altamente conspiradora sob a liderança do PCC. Mente e engana a comunidade internacional há meio século.

Não é um tema precoce?

Comecei a escrever com raiva e gradualmente cheguei a uma personagem. Ai Ding é um historiador de Wuhan, académico numa universidade alemã. No Ano Novo Chinês de 2020, cumpre a tradição e volta a casa, mas mal aterra em Pequim depara com a pandemia e o encerramento de Wuhan. Tem de fazer quarentena. Como vários médicos, especialistas e civis na cidade, começa a duvidar da origem do vírus. Ao mesmo tempo, acompanha os protestos em Hong Kong, a controvérsia com a rede 5G, a questão dos morcegos, a fuga do vírus em Wuhan – como a fuga em Chernobyl... a quarentena acaba e Ai ode voltar a casa.

Parece um final feliz.

Ninguém sabia que voltar a casa seria bem mais difícil do que deixar o país. Toda a China entrou numa era sem paralelo por causa do vírus. Decretou o confinamento obrigatório: vilas, cidades, transportes parados. A temperatura e o cartão de identidade são verificados em todo o lado. Ai Ding vive cenas absurdas. Quando Wuhan decreta o fim do confinamento, consegue chegar a casa mas a mulher morreu com o vírus. Fica com a filha de 10 anos. Não dura muito. As autoridades aparecem para levá-lo por causa de comentários online.

“Quando estava na Alemanha, os meus amigos insistiram para que ficasse. Disse-lhes que queria voltar porque era sobre a China que escrevia”. A afirmação é sua, como esta: “Para um escritor, sobretudo aquele que aspira a ser testemunha do que se passa na China, a liberdade de expressão e de publicar são mais importantes do que a vida”. Escolheu o exílio. Como pode ser essa testemunha?

Desde o discurso que fiz aquando do Peace Prize, em 2012, passei a ser dos inimigos mais perigosos para a ditadura chinesa. Como dizia o meu amigo Liu Xiaobo, “não tenho inimigos”, mas esta “nação do vírus”, que trouxe desastre a toda a Humanidade, será um inimigo para sempre. Vivo em exílio há dez anos, publiquei dez livros e recebi mais de 10 prémios importantes no Ocidente. Pressionei o Governo alemão para juntar esforços com o mundo literário e a sociedade, e resgatarem o casal de dissidentes chineses mais famoso de sempre, Liu Xiaobo e a mulher. Liu foi morto, mas a mulher foi resgatada.

Nada muda?

Posso escrever e testemunhar o que se passa na China em qualquer lado. Anseio pelo colapso do PCC, como aconteceu com a União Soviética. Anseio por voltar à minha terra natal, a “República de Sichuan”, onde há vinho maravilhoso, gastronomia deliciosa e de onde vem um lindo dialeto. O PCC roubou-nos os sonhos e as raízes.

Noutra entrevista referiu não querer voltar para a prisão nem ser tratado como “símbolo da liberdade”. Disse-o depois da morte de Liu Xiabo. Como é que a perda o mudou?

Mantiveram o Nobel da Paz preso até morrer e o mundo nada fez. Após a sua morte, o Ocidente continua a negociar com a China, como após o Massacre de Tiananmen ou quando Pequim aplicou a Lei de Segurança Nacional para destruir o princípio ‘Um País, Dois Sistemas’ em Hong Kong, assassinando e forçando inúmeras pessoas a abandonar o país. Mudei. Deixei de ter ilusões sobre a globalização, mas continuarei a minha busca pela verdade.

Como conseguiu fugir sob o apertado controlo das autoridades?

Pela fronteira com o Vietname, em 2011. Gastei muito dinheiro. Consegui através de bandos. Para não ser apanhado, tinha quatro telemóveis: um público, que a polícia podia vigiar; dois para comunicar com bandos e amigos no estrangeiro, e um suplente. Os diplomatas alemães ajudavam-me em segredo. Nunca fizeram nada que pudesse gerar um problema diplomático.

Como é a vida desde que se mudou para a Alemanha?

Muito boa. Usei o dinheiro dos prémios e das publicações para comprar uma casa em Berlim. Casei e fui pai. Desfruto da liberdade que me custou tanto a alcançar. Até fui para uma escola aprender alemão e fiz o exame para conseguir o direito à cidadania – um milagre que nunca aconteceria na China.

De que forma a decisão de fugir o afetou?

A minha criatividade cresceu a um nível sem precedentes.

Todos os artistas chineses dissidentes acabam por fazer da China e do regime o centro do trabalho. Sente que tem uma missão?

Sempre lutei pela liberdade das vítimas da ditadura, como Liao Xiaobo, Li Bifeng, Wang Yi e, mais recentemente, o poeta Wang Zang. Havia a ideia de que a Internet destruiria os regimes ditatoriais e as relações comerciais acabariam por levar à democracia. Foi por isso que, com o apoio dos Estados Unidos, a China foi autorizada a integrar a OMS com estatuto especial. Passaram 20 anos e a Net não só não destruiu os regimes autoritários como os fortaleceu. Onde quer que esteja, um dissidente vai ser sempre intercetado e perseguido. Uma transação bancária ou publicação na Internet pode ser usado como prova de crimes contra o país.

Pode ser mais claro?

A tua cara passa a ser automaticamente identificada por telefones e computadores da polícia nos hotéis, estações de comboio e aeroportos. É um exemplo de como a Internet e a tecnologia criada pelo Ocidente estão a ajudar os regimes autoritários. Aceder a sites estrangeiros bloqueados pelo regime é crime na China, a polícia pode prendê-lo. No Ocidente não há censura. Chineses e estrangeiros podem usar livremente o WeChat, o Weibo e o software da Huawei, ainda que todos sejam vigiados sem saberem. Quando há comentários considerados radicais, suspeitos, irónicos e subversivos, a Weibo emite um aviso de “Apagar a conta” ou apaga-a sem pré-aviso. Depois essa pessoa “desaparece” uns tempos, e amigos e família na China podem correr perigo.

Esteve quatro anos na prisão, onde diz ter sido agredido e torturado. Tentou suicidar-se duas vezes. Como sobreviveu?

Como escrevi, a prisão tornou-me um cão, invadiu a minha Humanidade com violência e ódio. Escrevo para desintoxicar. Dentro e fora da prisão, recolhi centenas de histórias. Muitos dos seus protagonistas tiveram desfechos bem mais tristes e são alvo de suspeitas e humilhação, o que às vezes é ainda mais difícil de curar. Tento expulsar a dor, a sensação de fracasso e a “doença da prisão” alheias para curar a minha, pouco a pouco, até que o amor e a compaixão voltem.

Diz que “os jovens de hoje já não sabem o que aconteceu em 1989”. Tiananmen é tema proibido na China. Depois da pandemia, há notícias de que Pequim está a fazer tudo para reescrever a história sobre a origem do vírus em Wuhan. Como sobrevive a memória quando censura e propaganda estão do outro lado?

Estou alerta contra a propaganda esmagadora que procura a lavagem cerebral. Nem toda gente tem de ser herói, mas cada um tem a responsabilidade e o direito de contar a história, desde logo a sua. Não devemos esperar que um escritor o entreviste e o faça.

Tiananmen prova que o regime chinês resiste a tudo?

Nós, intelectuais como Liu Xiaobo e Ding Zilin [fundadora do grupo Mães das Vítimas de Tiananmen], não falhámos. Sem essas memórias, o massacre seria apagado. A memória é uma forma de resistir. Precisamos que o Ocidente acorde e nos apoie. Populações e governos ocidentais têm de entender que negociar com um assassino – mesmo que as vítimas sejam milhares de chineses a milhas de distância – é o pecado original que acabará por corroer a vossa liberdade, democracia, Estado de Direito e direitos humanos. Vai destruir as células saudáveis de todos, como a pandemia.

Como olha para o que está a acontecer em Hong Kong? Há semelhanças com Tiananmen?

Em 1989, milhões de pessoas vieram para as ruas em dezenas de cidades chinesas. Não queriam derrubar o governo do PCC, mas apoiar os “reformistas”. Foram reprimidos com sangue e violência. Quando saí da prisão, em 1994, Deng Xiaoping tinha feito a digressão pelo Sul da China para lançar as reformas económicas que mudaram drasticamente o rumo do país. Os chineses deixaram de ser patriotas para se tornarem obcecados por dinheiro. O PCC usou primeiro balas para reprimir e lançar o medo, depois criou um caminho que fez toda a gente crer que podia enriquecer. A lavagem cerebral é muito mais eficaz com dinheiro do que com ideias políticas. As notas do banco são a religião do povo. Nenhum chinês é patriota se o patriotismo não lhe trouxer segurança e benefícios. Hong Kong hoje é Pequim há 31 anos.

Não se vê a comunidade internacional muito preocupada.

Os políticos ocidentais são incapazes de resolver a dualidade de critérios. A condenação do que se passa em Hong Kong e Xinjiang está longe de ser suficiente. Governos e políticos têm dificuldade em assumir posição clara, porque têm medo de perder o dinheiro e mercado chineses. O vírus alterou o mundo, mas o Ocidente continua sem conseguir acordo para perceber a sua ligação ao laboratório de Wuhan, isolar e exigir compensação à China. É uma vergonha para as sociedades democráticas e é muito perigoso.

Há quem defenda que é tarde para agir. Como olha para o país e para a influência que tem hoje?

Não, se o Ocidente se juntar contra a ditadura do regime chinês e exigir que pague pelos crimes contra a Humanidade que cometeu. Mas tem de ser já.

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