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sexta-feira, 15 de abril de 2022

MORREU EUNICE MUÑOZ, A GRANDE DAMA DO TEATRO


Eunice Muñoz, uma das maiores atrizes portuguesas, morreu, esta sexta-feira, no Hospital de Santa Cruz, em Lisboa, aos 93 anos.

O corpo da atriz vai estar em câmara ardente na capela da Basílica Estrela, em Lisboa, a partir das 17 horas de segunda-feira. O funeral realiza-se na terça-feira, 19 de abril, às 15 horas, seguindo, depois, em cortejo para o cemitério de Alto de São João, também na capital portuguesa.

"A morte só Deus sabe quando chega, mas não vou escurecer a vida até aí". As palavras de Eunice Muñoz sintetizam bem a forma como a atriz, a quem o epíteto de grande dama do teatro, embora não lhe desagradasse, também não deslumbrava, encarava a sua forma de viver e de estar. Em palco agarrava o olhar de quem a via e com isso, deixou a sua marca para a eternidade. Se percorrermos o seu currículo, temos, não só a sua história, como uma certa história do mundo do espetáculo e da cultura em Portugal num arco temporal de quase um século.

Nasceu entre artistas que andavam de terra em terra. Eram a Trupe Carmo, o teatro desmontável da família. Eunice Muñoz tinha cinco anos quando se estreou, em pequenos papéis. Fazia-o contrariada. Aos 13 anos subiu pela primeira vez ao palco do Teatro Nacional D. Maria II, sob o olhar atento de Amélia Rey Colaço, que teve como sua mestra. A peça chamava-se "Vendaval", e com ela se desvendou o seu jeito de artista. "Foi o meu anjo da guarda que decidiu que acontecesse assim. Chorei muito, ri, vivi, foi uma fase muito importante na minha vida", reconhecia.

Foi sempre "senhora do seu nariz" e sempre fez o que queria. Só assim se compreende que tenha decidido abandonar os palcos, quando já era figura de cartaz, para ser empregada de balcão numa loja de cortiças e posteriormente, secretária de direção numa fábrica de cabos elétricos. "Fui atriz até aos 23 anos, depois interrompi porque queria conhecer a vida normal, as outras pessoas" justificava. Mas a paixão pelo palco acabou por a resgatar dessa desejada "vida normal". E, nesse regresso, o medo de falhar sempre esteve presente. "Tenho medo de tudo. De escorregar, de me faltar a voz", confessava, muito antes de, na verdade, ter passado por tudo isso. Caiu de uma escada num ensaio no TNDMII, em 2011, tendo sofrido fraturas múltiplas, e sofreu outro duro golpe em 2013 quando lhe foi diagnosticado um cancro na tiroide.

O medo também aumentava à medida que as responsabilidades cresciam. Como aconteceu quando, em 1988, foi desafiada a protagonizar o quase monólogo "Zerlina", numa encenação de João Perry. Ou com "Mãe coragem", em 1986, pelas mãos de outro grande encenador, João Lourenço. "Eram personagens que me apaixonavam também. E isso eu acho que é muito importante". Essa paixão era a única coisa que gostava de transmitir. "Move-me a paixão pela profissão, o querer fazer sempre melhor. Fiz sempre um esforço para não pensar que era tão boa assim". De resto, dizia de forma desassombrada que não tinha nada para ensinar a ninguém. Nuca teve assomos de vedetismo. "A única coisa que digo é que não vale a pena ter vaidades. Somos aquilo que conseguimos ser. Não somos mais que isso".

Nas mais recentes entrevistas, perpassava imagem de uma mulher serena, apaziguada com o que a vida lhe reservara. "Gosto de fazer coisas em casa. De arrumar, de mudar o lugar dos objetos. Gosto muito de viver", confessava à Notícias Magazine, em julho de 2019."Encaro a morte como algo inevitável. Mas peço a Deus que não venha com sofrimento. Só espero que a morte me chegue serena".

Uma das melhores de sempre

Considerada uma das melhores atrizes portuguesas de todos os tempos, Eunice Muñoz, nascida em 30 de julho de 1928, na Amareleja, Alentejo, era oriunda de uma família de saltimbancos com raízes no circo. Costumava lembrar que se estreou em palco aos cinco anos, a cantar "Uma Porta e Uma Janela". Mas foi aos 13 anos que chegou ao Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), onde se encontrava sedeada a Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro. A peça de estreia chamava-se "Vendaval", de Virgínia Vitorino. O seu talento é de imediato reconhecido e admirado, o que lhe permite uma rápida integração na companhia, apesar de, na altura, não ter sequer passado pelo Conservatório. E assim vai participando em várias produções, nomeadamente "Riquezas da Sua Avó" (1943) e "Labirinto" (1944).

Entretanto já havia ingressado no Conservatório Nacional, tendo concluído o curso com uma média de 18 valores. Consegue então papéis em numerosas peças nas quais acaba por contracenar com nomes como Vasco Santana, Maria Lalande ou Mirita Casimiro.

Sem nunca ter abandonado o teatro, Eunice também se aventurou no cinema onde se estreou, em 1946, com o filme "Camões", de Leitão Ramos, interpretando o papel da fidalga Beatriz da Silva, estreia que lhe deu o prémio melhor atriz do SNI (Secretariado Nacional de Informação). Mas há mais. Participou também nos filmes "Um Homem do Ribatejo", de Henrique Campos, "Os Vizinhos do Rés-do-Chão", de Alejandro Perla, "A Morgadinha dos Canaviais", de Caetano Bonucci e Amadeu Ferrari.

Abandona a representação para trabalhar como empregada de balcão.

Entre mais alguns trabalhos, casa-se pela primeira vez com o arquiteto Rui Couto e com ele dá à luz uma filha. Dois anos depois, retorna a mais um prestigiado palco luso, desta feita ao Teatro Nacional, protagonizando uma adaptação da obra de Júlio Dantas "Outono em Flor". Com Palmira Barros, encenadora com quem já havia trabalhado várias vezes, surge como a personagem principal de "Espada de Fogo" e consolida o seu estatuto de grande atriz.

É então que, já sendo figura de cartaz, abandona a representação para trabalhar como empregada de balcão. Passou pelas cortiças de Mr. Cork, por uma fábrica de cabos elétricos, na Venda Nova, e pela fábrica Cel-Cat, onde conheceu o seu segundo marido, o engenheiro Ernesto Borges, com quem se casa em 1956, e com quem teve quatro filhos.

No Parque Mayer, aventura-se na comédia.

No que restou até ao início dos anos 60, Eunice assumiu papéis em peças de dramaturgos como o britânico William Shakespeare ou o italiano Luigi Pirandello. Para além disso, não se coibiu de arriscar em novos géneros. Por exemplo, no Parque Mayer, ao lado da companhia de Teatro Alegre, aventura-se na comédia.

A televisão não surge na sua carreira somente por intermédio das novelas. Muito antes disso, a sua presença era assídua nas chamadas sessões de teatro televisivo. Trabalhos de autores como o russo Anton Tchekov ("O Pomar das Cerejeiras") ou o francês Alexandre Dumas Filho ("A Dama das Camélias") foram alguns que conheceram essa transposição para o formato do pequeno ecrã. Não era a mesma coisa que vê-la ao vivo, mas permitia ao telespetador familiarizar-se com o toque íntimo e marcante das suas representações. Também é nesta década que, com o também emblemático ator Raúl Solnado, cria a Companhia Portuguesa de Comediantes (CPC), com sede no Teatro Villaret (Lisboa).

Casou três vezes e teve seis filhos.

Em 1970, após um terceiro casamento, agora com o poeta António Barahona da Fonseca e com quem teve uma filha, cria com José de Castro a Companhia Somos Dois, com a qual faz uma longa digressão por Angola e Moçambique. Em 1971 volta ao palco do Teatro da Trindade (Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro), ao lado de João Perry, para fazer "O Duelo", de Bernardo Santareno. No mesmo ano integra uma nova formação artística no Teatro São Luiz, em Lisboa, onde interpreta José Régio. Com a proibição pela censura, a poucas horas da estreia, de "A Mãe", de Stanislaw Wiktiewicz, em que era a protagonista, o diretor da companhia, Luiz Francisco Rebello, demite-se e cessa a atividade do grupo.

Eunice dedica-se, então, à divulgação de poetas, quer em disco, quer em recitais, dando voz a Florbela Espanca, António Nobre ou António Maria Lisboa. Regressa ao teatro, desta vez no Teatro Experimental de Cascais (TEC), para interpretar "As Criadas", de Jean Genet. Faz uma longa digressão por África na companhia de Carlos Avilez, com peças como "Fedra", de Jean Racine, ou "A Maluquinha de Arroios", de André Brun.

Integrada na companhia residente do reaberto TNDMII, Eunice volta aos palcos portugueses apenas em 1978, onde protagonizará peças que foram enorme êxito de dramaturgos como Donald Coburn, John Murray, Bertolt Brecht, Hermann Broch, Athol Fuggard ou Eurípedes, entre outros, trabalhando com encenadores como João Perry, João Lourenço ou Filipe La Féria, de quem protagonizou o mega sucesso "Passa por mim no Rossio" (1992).

"A Maçon", peça escrita pela romancista Lídia Jorge propositadamente para si, foi à cena em 1997 no palco do TNDMII e em 2001 "A Casa do Lago", de Ernest Thompsson, encenada por Filipe la Féria, estreia no Teatro Politeama. Em 2006, representa pela primeira vez na casa a que deu nome, o Auditório Municipal Eunice Muñoz, em Oeiras, com a peça "Miss Daisy", encenada por Celso Cleto.

Em 2007, no Teatro Maria Matos, coprotagoniza com Diogo Infante a peça "A Dúvida", de John Patrick Shanley. Em 2009, volta ao D. Maria II com o monólogo "O Ano do Pensamento Mágico", de Joan Didion, sob encenação de Diogo Infante.

Queda, tumor e cirurgia adiaram regresso ao palco

Em maio de 2012, a atriz de 83 anos sofreu uma queda no Teatro Nacional D. Maria II, durante os ensaios de reposição da peça de Tennessee Williams "O Comboio da Madrugada", e partiu os dois pulsos e lesionou a cervical, sendo a estreia cancelada. Correram nesta altura rumores da sua morte: "uma tontice!" reagiu.

Em abril de 2013, aos 85 anos, foi submetida a uma operação para remoção de um tumor na tiroide. Depois disso, fez tratamentos de quimioterapia. Em julho de 2016, com 88 anos, quando se preparava para voltar aos palcos pela mão de Filipe la Féria, com a peça "As árvores Morrem de pé", a atriz viu-se confrontada com um novo problema de saúde, do foro cardíaco, tendo sido submetida a uma cirurgia para substituir uma válvula.

O seu regresso aos palcos, após uma ausência de quatro anos, estava previsto para outubro de 2016, pela mão de Filipe La Féria, mantendo-se como uma das protagonistas (a outra é Manuela Maria) de "As árvores morrem de pé", de Alejandro Casona. Uma vez mais foi traída pela doença. Poucos dias antes da estreia da peça, admitiu que não sabia ainda quando subiria ao palco do Politeama e afirmou que esperava fazê-lo "dentro de pouco tempo". Voltou ao palco do D. Maria, a 28 de novembro, mas para uma conversa conduzida por Diogo Infante.

Regressou em abril do ano passado ao Auditório Eunice Muñoz, em Oeiras, para estrear "A margem do tempo", com a neta, Lídia Muñoz, produção que levou a diferentes palcos do país, numa digressão que culminou no Teatro D. Maria II, em Lisboa, no passado dia 28 de novembro, o mesmo palco, onde exatamente 80 anos antes fizera a sua estreia.

Na altura, chegava às salas de cinema o documentário "Eunice, ou cartas a uma jovem atriz", de Tiago Durão.

Carreira no cinema e na televisão

Os anos 80 e 90 solidificaram o legado de Eunice Muñoz a partir das plataformas cinematográfica e televisiva, participando em filmes e telenovelas. "Manhã Submersa" (1980), do cineasta Lauro António, e "Tempos Difíceis" (1987), do realizador João Botelho, são disso exemplos.

Resistindo, inicialmente, a trabalhar em televisão, fazendo novelas, em 1993 decidiu aceitar o desafio de Walter Avancini e protagonizar para a RTP a telenovela "A Banqueira do Povo", interpretando Dona Benta, uma personagem baseada na figura de Dona Branca, uma burlona condenada durante os anos 80 por fraude e corrupção.

Seis anos depois protagonizou, ao lado de Ruy de Carvalho, a telenovela "Todo o tempo do Mundo" (1999), exibida na TVI. Continuou a trabalhar frequentemente em televisão, tendo feito uma pequena aparição na novela brasileira "Porto dos Milagres" (2001) e nas telenovelas nacionais "Coração Malandro" (2003), "Olhos nos olhos" (2008), "Mar de Paixão", (2010), "Destinos cruzados" (2013). Em setembro de 2016 integrou o elenco da novela da TVI "A impostora", onde interpretava Pureza, uma personagem ligada ao núcleo cómico.

A estreia no cinema aconteceu em 1946, em "Camões", de Leitão de Barros, que lhe valeu o prémio de melhor atriz do ano. Foi protagonista no filme "A Morgadinha dos Canaviais", de Caetano Bonucci e Amadeu Ferrari (1949), adaptado do romance homónimo de Júlio Dinis. Participou ainda em "Ribatejo", filme de Henrique Campos. Tem interpretações antológicas em "Manhã Submersa", de Lauro António (1980) e "Tempos Difíceis", de João Botelho (1987).

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