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sábado, 26 de dezembro de 2020

JOSÉ COSTA E SILVA: UMA CONSOADA À LAREIRA


UMA HISTÓRIA DE NATAL

De uma família de agricultores e com um pai carpinteiro, José Costa e Silva lembra com carinho um “Natal genuíno”, simples, em que os melhores presentes eram o convívio em família e a surpresa escondida no bolo-rei.

Foi na casa de lavoura dos avós, em Grijó, Vila Nova de Gaia, que José Costa e Silva passou os primeiros natais. O agora advogado, de 68 anos, lembra que Grijó “era essencialmente uma terra rural, dominada pela agricultura e os pequenos ofícios”.

“O Natal era com a família alargada – avós e mãe, os dois irmãos, sete tios e muitos primos, com quem passava o serão a brincar. “As tias cozinhavam e a avó ia comandando as tropas, fazia a broa, os bolinhos de abóbora, as rabanadas de vinho com canela, a aletria e a caldeirada tradicional com o bacalhau, pencas e os grelos”. Esta era cozinhada na lareira, “nas panelas de ferro muito grandes com três pernas, e as outras guloseimas preparadas num fogão de ferro a lenha”. Também à lareira, e para se ir aconhechando o estômago, assavam-se castanhas e os mais velhos bebiam vinho aquecido aromatizado com canela aquecido nas brasas. “Não havia as lambarices todas que há agora, nem muitos brinquedos no sapatinho. O que recebíamos eram os chocolates que estavam na árvore de Natal. Esperávamos pelo dia seguinte para poder assaltar a árvore”, recorda. Isto, antes de irem à primeira missa do dia 25 para beijar o menino Jesus. Depois da ceia, os mais velhos jogavam às cartas e os mais novos ao rapa, jogo de pião com quatro faces. Jogavam a pinhões, que iam mudando de mão à medida que o jogo se desenrolava.

Naquela época, “não havia as tradições ligadas ao Pai Natal”, o foco estava no menino Jesus e no presépio. Toda a gente colaborava para montar a cena do nascimento e a árvore de Natal, onde a lã das ovelhas a simular a neve. Mas um dos momentos mais esperados era quando o tio que trabalhava no Porto chegava com o bolo-rei. “Não era tanto pelo bolo em si, mas porque dentro dele havia uns brindes, uns bonequinhos feitos em madeira, e depois em metal, com figuras de desenhos animados da altura. “Nós tínhamos o essencial e dávamos valor a tudo. Agora, as crianças acabam de desembrulhar uma prenda e já estão a abrir outra, sem ver a anterior, acabam por não dar valor a nenhuma delas, nem sabem quem deu o quê”, considera.

O Natal como o vivia, foi desaparecendo, mas José ficou marcado para sempre por aqueles serões de convívio. Hoje, com três filhos, uma neta de cinco anos, um de três e outro de um ano e meio (e mais uma a caminho), continua a gostar desta época do ano e do seu “espírito especial”.

Lendas ao calor da lareira

Durante o serão, as tias iam contando histórias. “Eram as lendas ligadas ao menino Jesus, como a do pássaro que ia tapando as pegadas do burro e do São José durante a fuga para o Egipto ou a história do quarto rei mago, que seguiu a estrela para ir presentear o recém-nascido. Mas atrasou-se. Encontrou uma velhinha a carregar lenha e ajudou-a. Mais tarde, tratou de uma pessoa que encontrou ferida. Foi distribuindo os presentes que levava para o menino. A estrela acabou por levá-lo a Jerusalém, onde encontrou Cristo na cruz”, recorda.

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